CRSI, DONDE O OLHAR SE ESPRAIA…

CRSI, DONDE O OLHAR SE ESPRAIA MUNDO FORA E VIDA ALÉM
Notícia Campeão das Províncias 20 Fev 2020
LINO VINHAL

Fiz um pacto comigo mesmo no início destes muitos anos que levo de jornalismo como profissão: sacrifico – se impedir não puder – a objectividade à sensibilidade, com uma condição: não contornar a realidade nem molestar a verdade, no mínimo que seja. Aconteceu-me agora de novo, no final da semana passada, quando decorria no Colégio Raínha Santa Isabel, aqui em Coimbra, a Semana Cultural, terminada no sábado com um sarau artístico muito bem conseguido pelos alunos.

A Semana Cultural do Colégio é uma Mostra agigantada – verdadeira Exposição – dos muitos e diversos trabalhos desenvolvidos pelos alunos desde o início do ano. São salas e mais salas com inúmeros trabalhos, abrangendo todos os ciclos e todas as vertentes do Ensino ali ministrado, do primeiro ao último ano, abrangendo todas as áreas curriculares, do Científico às Humanidades, da Economia às Artes. Fiquei em choque, verdadeiramente surpreendido, com tantos e tão conseguidos trabalhos, apresentados pelos próprios alunos, do mais petiz de quatro ou cinco anos ao já jovem seguro de si. Chocado com tantos trabalhos, chocado com a beleza dos que pude e soube apreciar, no decorrer de uma visita que de longa se fez curta em minutos. Surpreendido como, a par de tão intensa actividade lectiva a que são chamadas as Escolas – todas, há em algumas ainda têm tempo, oportunidade e motivação para tanto se envolverem, alunos e professores, num périplo cultural que deverá ser para os alunos um livro aberto de aprendizagem constante.

Mas se me chocou tudo isso, mais me tocou a matriz valorativa de toda a exposição que não escondia – fosse qual fosse a natureza dos trabalhos expostos – os princípios e valores imanentes à vida, ao universo e ao homem na sua dimensão moral e transcendental. Verdadeiramente notável! Compreendi, finalmente compreendi, a razão pela qual o Colégio Raínha Santa é uma das escolas privadas mais prestigiadas do país, das mais pretendidas pelas famílias para prepararem os seus filhos, das que melhores resultados conseguem no contexto nacional. Melhores resultados nas notas conseguidas, honradamente conseguidas; melhores resultados na formação cívica e educacional de quem ali foi aluno; melhores resultados na empregabilidade, já que por ali ter passado é um elemento valorizador em qualquer curriculum e recomendação não despicienda que passe desapercebida aos empregadores.

A dedicação dos alunos, traduzida nos trabalhos apresentados; a paixão, a entrega e o esforço neles envolvidos pelos professores; a satisfação estampada no rosto de uns e outros, são a comprovação – se necessária fosse – de que o trabalho compensa, que a busca do mérito gratifica, que a disciplina se justifica.

Dirigido em todas as suas valências – da académica à disciplinar, da contratação ao rigor e mais claramente ainda na sua assumida dimensão católica – por essa grande Senhora do Ensino em Portugal que é a Irmã Maria da Glória, o Colégio Rainha Santa Isabel é por todos reconhecido como sendo umas das mais sólidas referências educacionais do país, preparando os alunos muito para além da vertente escolar. É assim há anos. São disso testemunhas famílias inteiras, milhares de alunos que por ali têm passado e os 870 que o frequentam este ano. Apesar disso, não sabíamos ser esta Escola tão profunda e tão preocupada com a dimensão cívica da sua comunidade de alunos, não a sabíamos tão pai e tão mãe de centenas de crianças que faz filhos seus várias horas por dia.

Dirão alguns – ou poderão dizer – que a ideia de Deus está demasiadamente presente em cada sala, em cada piso, em cada ensinamen- to ali ministrado. E depois? Não é por iniciativa das famílias que os alunos frequentam o Colégio? Não é a pedido dos alunos que ali se mantêm anos além? Alguém é obrigado a interiorizar convicções que o desconfortam? Vemos, nós, as coisas a uma outra luz, menos personificada na imagem dum Criador imaculado. Vemos nesse Deus feito presença constante no Colégio Rainha Santa o autor e vigilante de um conjunto de princípios e valores que são imanentes à condição das pessoas de bem, que as enformam e alimentam na esperança de um mundo melhor.

Desci a Rua do Brasil a pensar nesta dimensão assumida e propositadamente católica que assume Deus, esse Deus que habita na cabeça e no coração de grande parte do mundo, como se fosse o Chefe natural de toda a comunidade escolar – alunos e professores –, todo o ano, de todos os anos e ciclos. Fará isso sentido? Faz todo o sentido, desde logo no que aos valores e princípios ministrados diz respeito. E fará sentido para além disso, perguntava-me no silêncio da minha descida feita em solidão a caminho da Portagem. Hesitante de nascença, hesitante na vida, hesitante morrerei. Mas se não fizesse sentido talvez eu me tivesse dado conta mais cedo que a Portagem já ficara lá para trás .

Vou até lá baixo, Coimbra fora, Choupal além. Se a confirmação não encontrar, pelo menos fiz a minha parte. E estou disponível para atravessar os campos do Mondego. Chamem-me. O caminho é longo de mais para um só, descalço ainda por cima.